Alunos do 1.º Ciclo não conseguem saltar à corda

Análise do IAVE aos resultados das provas de aferição revela graves dificuldades ao nível motor nos alunos do 1.º Ciclo. Professores admitem que programa não está a ser dado como deveria. Pais alertam para falta de condições das escolas.

Quase metade (46%) dos alunos do 2.º ano que fizeram a prova de Expressões Físico-Motoras, em 2017, não conseguiram dar seis saltos consecutivos no salto à corda; 40% não foram capazes de dar uma cambalhota para a frente, mantendo a direção e levantando-se com os pés juntos; e 31% revelaram dificuldades em participar num jogo infantil de grupo. Os dados são revelados hoje num relatório do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que analisa os resultados das provas de aferição. Estão longe de ser o pior desempenho dos alunos, mas, para professores e dirigentes de confederações de pais, é um alerta que devia servir para repensar o modelo de ensino da disciplina.

“Os resultados reforçam a ideia de que a Educação Física não é dada no 1.º Ciclo como devia”, sublinha o presidente da Confederação Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física (CNAPEF). Avelino Azevedo defende o modelo de coadjuvação para o 1.º Ciclo, isto é, que a área deve ser lecionada pelo professor titular da turma em parceria com um docente de Educação Física.

“Os resultados são inquietantes porque confirmam que o programa não está a ser aplicado”, considera o presidente da Confederação Independente de Pais (CNIPE). O problema, frisa Rui Martins, é que a maioria das escolas “não tem instalações ou equipamentos e as horas semanais não são cumpridas”.

Dificuldades em jogo

No jogo “rabo de raposa”, os alunos tinham de realizar ações de perseguição. O relatório menciona que “66% conseguiram ter sucesso nesta tarefa, mas que destes apenas 12% conseguiram ajustar as suas ações, cumprir as regras definidas e alcançar o objetivo do jogo (tirar o maior número de lenços dos companheiros sem perder o seu)”. Quase um terço manifestou dificuldades em participar no jogo e o IAVE defende que os jogos infantis são uma aprendizagem que tem de ser enriquecida.

Relativizar resultados

O instituto não recomenda, no entanto, o reforço do ensino desta disciplina, como faz para a Matemática ou para a Física e Química. “Não o faz porque relativiza os resultados, mas devia”, critica Avelino Azevedo. A área do 1.o Ciclo é fundamental porque é nestas idades que devem ser desenvolvidas capacidades, como o equilíbrio ou a flexibilidade.

O pedagogo Renato Paiva também vê nestes dados um “alerta” que resultam do fato de o desenvolvimento psicomotor ficar em segundo plano no sistema de ensino.

Não é valorizada

“Áreas como a Educação Física, a Educação Musical ou a Expressão Dramática são menos valorizadas que o Inglês, por exemplo. São prioridades que se vão estabelecendo e enraizando e que originam depois resultados deste tipo.

“Mente sã em corpo são” parece ainda não ter um impacto profundo no sistema educativo”, considera. Avelino Azevedo, Rui Martins, Renato Paiva e o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, defendem uma maior diversidade nas metodologias pedagógicas usadas.

“Porque não temos crianças a aprender a multiplicar com atividades e jogos no recreio? Enquanto tivermos nas escolas uma preocupação demasiado lógica, matemática e linguística, estou convicto de que continuaremos a ter resultados desta natureza”, alerta Renato Paiva.

“As crianças não nascem tortas. Há qualquer coisa que não está a funcionar e todos temos responsabilidades”, insiste Jorge Ascenção. Os quatro concordam que os resultados também espelham uma sociedade mais individualista, em que as crianças brincam muito menos.

Dados

Mais leitura

Na prova de Português do 2.º ano, apresentaram dificuldades em interpretar o que ouvem, o que leem e também em caracterizar uma das personagens, o que revela que “a leitura do texto literário carece de maior insistência em contexto de sala de aula”.

72% dos alunos do 5.º ano não identificam o rio Mondego na prova de História e Geografia de Portugal. Os resultados também apontam falhas na consolidação das aprendizagens. Na História, o pior desempenho foi nas questões sobre o Tratado de Tordesilhas, em que 65% dos alunos falharam todas as questões.

Problemas de Álgebra

Nos capítulos Números e Operações e Álgebra, da prova do 5.º ano, mais de metade dos alunos (52,5% e 57,6%, respetivamente) não conseguiram ou não responderam às perguntas. Apenas 4,9% conseguiram responder ao primeiro capítulo e 14,9% ao segundo.

Área de um polígono

Na prova de Matemática do 5.º ano, os alunos manifestaram dificuldades em todos os domínios: só 10% conseguiram calcular a área de um polígono que envolvia a área de dois triângulos e de dois retângulos.

Sistema reprodutor

Na prova de Ciências Naturais, 83% dos alunos do 5.º ano mostraram reconhecer o tipo de desenvolvimento embrionário de um animal, mas só 29% conseguiram nomear de forma correta e completa as células sexuais.

Fonte : JN