Monte dos Castelinhos: à procura da cidade “perdida” de Ierábriga

Sítio arqueológico em Castanheira do Ribatejo já é o mais importante da Região de Lisboa e Vale do Tejo para o conhecimento da presença romana. Escavações já descobriram fortificação, casas, ruas e um escudo romano único na Península Ibérica.

O monte dos Castelinhos, uma espécie de promontório que se eleva sobre a Estrada Nacional n.º 1 (EN1), perto da entrada sul do Carregado, já estava referenciado como sítio arqueológico importante. Mas só nos últimos dez anos avançaram campanhas de escavação arqueológica regulares, que começaram por descobrir uma grande fortificação da época romana e muitos objectos de cariz militar. Este Verão, uma nova campanha de escavação pôs a descoberto casas, ruas, muita cerâmica, moedas e outros objectos de uso comum, que reforçam a tese dos arqueólogos responsáveis de que ali se situava a cidade romana de Ierábriga, considerada a mais importante entre as antigas Lisboa (Olissipo) e Santarém (Scallabis). Ierábriga é referida em textos clássicos como estando situada a cerca de 30 milhas romanas (perto de 45 quilómetros) de Olissipo. A distância corresponde e há novos dados que suportam essa forte possibilidade de estar ali esta importante cidade romana “desaparecida” há muitos séculos.

Certo é que o sítio do monte dos Castelinhos (situado no extremo norte do concelho de Vila Franca de Xira, na freguesia de Castanheira do Ribatejo), pelos achados arqueológicos e pelo seu grau de preservação, já é considerado o mais importante da época romana em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo. O monte, muito pedregoso, não teve praticamente exploração agrícola e todos estes vestígios estão muito bem preservados, permitindo reconstituir muito do que foi a vivência romana neste ponto estratégico que era, então, sobranceiro ao Tejo e à principal estrada romana que atravessava o território da Lusitânia. João Pimenta e Henrique Mendes, arqueólogos do município, têm liderado estas escavações e sublinham que o foco principal não é confirmar que Ierábriga se situava ali, mas pôr progressivamente a descoberto e estudar um local da maior importância para o conhecimento da presença romana na Península Ibérica. Depois, o sítio do monte dos Castelinhos terá todas as condições para ser classificado como Monumento Nacional e a Câmara de Vila Franca pretende, no futuro, desenvolver ali projectos educativos e até mesmo turísticos.

De acordo com o arqueólogo vila-franquense, o objectivo era confirmar se, de facto, no monte dos Castelinhos, para além da comprovada presença militar, tinha havido em paralelo ou posteriormente um desenvolvimento urbano importante. “E isso prende-se com uma das questões a que o projecto esteve sempre ligado, embora não seja isso que nos move, mas que é perceber se o monte dos Castelinhos poderá ser a Ierábriga referida em várias fontes clássicas. Abrimos esta nova frente de escavação e os resultados surpreenderam-nos de uma forma assaz relevante, com o estado de conservação das estruturas da época romana já do tempo do imperador Augusto. Temos vários edifícios, temos uma rua, que indica que nessa altura o sítio foi reconstruído e tinha uma grande importância económica. Era um sítio rico, com uma grande dinâmica comercial, o que poderá contribuir realmente para ser a cidade de Ierábriga”, acrescenta João Pimenta, explicando que foi encontrada muita cerâmica do tipo terra sigillata (objectos pintados com um verniz vermelho que têm marcas que permitem localizar e datar a sua produção), uma grande quantidade de ânforas, moedas da época de Augusto, fíbulas e outros materiais. Esta campanha permitiu apenas escavar a parte superficial e ainda não chegou aos pavimentos das casas.

Poderão estes dados corresponder a uma importante villa (quinta) romana e não a uma cidade? Henrique Mendes garante que não. “Pensamos que seja uma coisa maior estamos perante uma nova área com alguma sumptuosidade, algo de grande dimensão. Temos já inclusivamente escavada uma rua em lajado e terra batida. Com esta dimensão e com este tipo de construções em termos de urbanismo não seria compatível com uma villa, é compatível com algo de dimensão diferente”, sublinha.

Ierábriga é referida em várias fontes clássicas desde o “Itinerário de Antonino” (século I dC) a textos do geógrafo grego Ptolomeu, que falam numa cidade localizada na zona do estuário do Tejo a 30 milhas romanas de Olissipo, que tinha grande importância económica, também porque era ali que quem viajava a partir da antiga Lisboa (Olissipo) parava para pernoitar, comer, mudar de cavalos ou fazer compras nos mercados. Um marco miliário recentemente descoberto junto a Alenquer (ver caixa) veio reforçar a tese de que “Ierábriga” ficava mesmo na zona do actual monte dos Castelinhos. Falta descobrir vestígios mais precisos que confirmem esta informação e encontrar explicações definitivas para o “abandono” posterior da cidade. João Pimenta e Henrique Mendes acreditam que a falta de água no topo do monte tenha feito, progressivamente, com que as populações se tenham deslocado para zonas mais baixas, mais próximas do Tejo e do seu afluente rio da Pipa. E, de facto, no sopé do monte também já foram encontrados vestígios da época visigótica.

“Estes dados já são suficientemente tangíveis para podermos afirmar que há aqui um sítio importante do tempo do imperador Augusto e que, possivelmente, não há outra candidatura tão boa como esta, há fortes probabilidades de estarmos aqui perante a antiga Ierábriga”, assegura João Pimenta.

Henrique Mendes salienta que decorre, agora, um trabalho aturado de investigação de todos os materiais encontrados e que, no próximo Verão, à mesma em parceria com o Curso de Arqueologia da Faculdade de Letras de Lisboa, haverá nova campanha de escavações neste local. “Estamos a falar de um sítio com mais de dez hectares, por muito que consigamos escavar vai sempre ficar em aberto uma janela de interpretação. Resta-nos esperar que, à medida que vamos escavando, nos sejam reveladas pistas sobre esta grande ocupação e sobre o porquê do abandono deste sítio”, concretiza. “Estamos em crer que o monte dos Castelinhos já reúne todas as condições para vir a ser classificado como Monumento Nacional”, acrescenta Henrique Mendes, até porque em toda a Região de Lisboa e Vale do Tejo “não há nada da época romana com este estado de preservação, as características geológicas do local permitiram isso. A exploração agrícola que teve não foi muito intrusiva e isso permitiu que este sítio esteja muito bem preservado”, conclui João Pimenta.

Marco miliário de Alenquer ajuda a confirmar localização de Ierabriga

Nos últimos meses foi, também, descoberto na Quinta de Santa Teresa (junto ao Centro Escolar de Alenquer) um marco miliário romano importante para confirmar a tese de que Ierabriga pode estar mesmo no monte dos Castelinhos. Dizem as fontes clássicas que Ierabriga distava 30 milhas romanas de Olissipo. Ora, este marco miliário diz que a zona de Alenquer estava a 35 milhas romanas de Olissipo. Se tivermos em conta que entre Alenquer e o monte dos Castelinhos distam cerca de 5-6 quilómetros, este é um novo dado para confirmar esta forte possibilidade. Por outro lado, afastará uma tese anterior que situava Ierabriga nos arredores de Alenquer, facto que não foi confirmado por escavações. “É mais um indicador de que Castelinhos possa ser efectivamente Ierábriga”, sustenta João Pimenta.

Escudo único na Península Ibérica

Entre milhares de objectos já recolhidos nas escavações do monte dos Castelinhos destaca-se um escudo militar romano com um grau de preservação único na Península Ibérica. Tanto assim é que este escudo já foi cedido para exposições em Espanha. “É uma peça única a nível do património nacional, que já foi requerida para várias exposições, inclusivamente em Mérida e em Madrid. E que já esteve por duas vezes no Museu Nacional de Arqueologia. A par do escudo, o mais importante é o conjunto de materiais de cariz militar, que é raro. E depois, temos um conjunto numeroso de cerâmicas e de recipientes metálicos, que também são raros. E temos estiletes de osso que querem dizer que quem ali vivia eram pessoas que sabiam escrever e escreviam em tabuinhas de cera, muito típicas da época romana”, remata João Pimenta.

Fonte : Público