Muay Thai. A vida dos campeões portugueses que lutam na Tailândia

Trabalham o ano todo em Portugal e depois gastam as férias e as poupanças numa viagem para a Tailândia. Lá, treinam, treinam, treinam. Objetivo: tornarem-se campeões de Muay Thai.

As rastas no cabelo, o físico alto e musculado e a energia com que gere cada detalhe do clube de combate que fundou não deixam adivinhar que José Fortes já anda nesta vida há mais de três décadas. Mas, com 56 anos, diz que está “a ficar velho e cansado”. Há 30 anos que este luso-cabo-verdiano ensina em Portugal a milenar arte marcial do Muay Thai tal como a aprendeu na Tailândia, há décadas, com os melhores mestres. E tem motivos para se orgulhar do seu trabalho: à porta do minúsculo escritório onde dá as boas-vindas a quem chega ao seu enorme clube de combate, em Castanheira do Ribatejo, construído para simular os campos de treino da Tailândia, Fortes exibe os cinturões de campeão europeu e campeão ibérico que um dos seus atletas, Luís Passos, conquistou recentemente. São apenas alguns dos inúmeros títulos que já chegaram àquela academia. Mas não é com os títulos individuais e com os campeões que o mestre Fortes mais se preocupa. “Eu ensino Muay Thai para todos”, diz.

Passa das 19h e os primeiros atletas estão a chegar para o treino, que começa dentro de meia-hora. “Sawadee Kaa, mestre”, dizem as raparigas, com um ligeiro baixar de cabeça e as mãos juntas em frente ao peito. “Sawadee Krap”, dizem os rapazes, com o mesmo gesto. O mestre retribui a saudação. Trata-se de um cumprimento tradicional tailandês utilizado pelos praticantes de Muay Thai, a arte com que os guerreiros Thai protegeram durante séculos aquele país. Chegam crianças de dez anos e adultos de 50. “O grande segredo desta academia é que eu não separo as pessoas. Ponho os campeões a ensinar as crianças, ponho todos, independentemente do grau ou da idade, no mesmo sítio. E é assim que aprendem todos”, conta José Fortes, à medida que vai cumprimentando os atletas que chegam ao ginásio.

“Estou no meu palácio”, diz José Fortes, no pequeno escritório onde recebe os visitantes

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Olha, olha, o Kalu e o Dimitri. Estão bons? Estes chegaram da Tailândia este fim-de-semana”, conta, no corredor que dá acesso ao “santuário”, o ringue central onde treinam campeões e amadores apaixonados pela verdadeira arte do Muay Thai, que tem mais de espiritual e religioso do que de pancada propriamente dita. É mesmo com eles que queremos falar, para saber, afinal de contas, o que faz alguém apaixonar-se por um desporto ao ponto de gastar cada cêntimo que ganha para viajar até ao outro lado do mundo e passar lá temporadas — que podem ir de um mês até dois anos — a treinar intensivamente e, com sorte, conseguir combater em algumas das principais arenas do mundo. A Carlos e a Dimitri juntam-se Daniel Danut, que acabou também de chegar da Tailândia e da China, e Luís Passos, conhecido como Luís Africano, o atleta que aos 18 anos já era campeão europeu da modalidade. Em comum, têm a paixão pela Tailândia: “No avião de regresso já estava a pensar em juntar dinheiro novamente, e marcar as férias do próximo ano para ir mais um mês para lá”, conta Dimitri.

Por fora, a academia de José Fortes não impressiona. É um grande edifício antigo, todo branco, com um enorme parque de estacionamento à frente, numa zona residencial perto da A1, a poucos quilómetros de Vila Franca de Xira. Lá dentro, tudo muda — é como se entrássemos num local que não pertence a Portugal, mas à Tailândia, e é mesmo esse o objetivo. A porta principal abre-se para um longo corredor ladeado por retratos. Um do próprio José Fortes, o mestre daquela academia. Ao lado, Bob Marley, um gosto pessoal de Fortes, “um rastafari convicto”. Depois, Muhammad Ali e Bruce Lee servem de inspiração aos alunos da academia antes de entrarem no enorme ringue.

Ponho os campeões a ensinar as crianças, ponho todos, independentemente do grau ou da idade, no mesmo sítio. E é assim que aprendem todos
José Fortes, mestre de Muay Thai

A primeira porta corresponde ao pequeno escritório, atulhado de fotografias antigas, que serve também de receção e sala de reuniões. Uma pequena escada logo ao lado do escritório conduz à camarata — um pequeno quarto onde estão guardadas várias camas desmontáveis. Quando é preciso fazer estágios de preparação para provas importantes, José Fortes pega nos atletas e coloca-os na academia durante grandes períodos de tempo. Chegam a ficar um mês inteiro ali. Dormem lá — dividem-se entre a camarata e a sala de convívio, onde montam algumas das camas –, cozinham e comem e, sobretudo, treinam muito. O ringue é o centro de tudo, no meio de um pavilhão enorme. Em torno do ringue, várias máquinas de ginásio e sacos de boxe permitem aos atletas fazer os primeiros aquecimentos. Treinam virados para o ringue, o local onde todos querem subir para combater.

A entrada para o ringue leva-nos diretamente para o “santuário” de José Fortes (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

De Lisboa a Banguecoque para lutar no Maracanã do Muay Thai

Mesmo que a organização do campo de treino e os métodos de ensino do mestre José Fortes sejam iguais aos usados na Tailândia, a verdade é que entre a academia de Castanheira do Ribatejo e os campos de Banguegoque não há comparação possível. A começar pela rotina: Daniel Danut, romeno de 25 anos que emigrou para Portugal para se juntar à irmã, que já cá vivia, trabalha todos os dias na construção civil; Luís Passos, 21 anos, concilia um curso profissional de logística com um emprego como segurança numa discoteca; Carlos Moura, que fez 35 anos a bordo de um avião entre um combate na China e outro em Banguecoque, é porteiro; já o ucraniano Dimitri trabalha todos os dias numa fábrica. Tentam, diariamente, arranjar duas horas ao fim do dia para treinar na academia de José Fortes, mas nem sempre é possível.

Quando vão para a Tailândia — todos eles já passaram vários meses lá, no campo de treinos do mestre que há 30 anos formou José Fortes — abstraem-se do resto do mundo. A rotina é simples: levantam-se diariamente por volta das 5h30, começam a correr às 6h e a partir das 7h treinam com os mestres e instrutores. Almoçam bem cedo, por volta das 11h30, dormem até meio da tarde e depois repetem o processo todo: correr, treinar e jantar. Todos os dias é assim. “Poder viver apenas para o Muay Thai, nem que seja durante um mês, é uma experiência de outro mundo”, garante Danut, que fez um esforço enorme durante todo o ano para juntar dinheiro para lá passar um mês. “Tirei um mês de férias e paguei tudo do meu bolso. Tem de ser assim. É impossível viver apenas do Muay Thai, mas era esse o meu sonho.” Assim que voltou a Portugal, regressou à construção civil.

Enquanto espera pelo dia em que um patrocinador mundial lhe permita viver apenas daquela arte marcial, o romeno — que já vive há tantos anos em Portugal que fala num português perfeito — vai praticando com José Fortes a arte marcial pela qual se apaixonou há seis anos. “Na altura, o meu primo andava a treinar kickboxing, e trouxe-me. Mas eu experimentei o Muay Thai e fiquei viciado”, explica Danut. Em seis anos, conseguiu passar dos treinos amadores nos ringues portugueses ao combate das superestrelas em Lumpinee, o estádio mais importante da Tailândia, e, por conseguinte, do mundo. “É como para um jogador de futebol ir jogar ao Maracanã. É uma espécie de consagração conseguir lutar em Lumpinee”, explica José Fortes, para dar uma ideia da importância do combate em que Danut lutou na semana passada. O romeno esteve três semanas na Tailândia, depois seguiu para a China onde um promotor lhe arranjou um combate de topo e de lá seguiu para Lumpinee, “o top do Muay Thai, uma experiência brutal”.

Quem também conseguiu combater em Lumpinee no último mês foi Carlos Moura. “As mãos tremiam, as pernas falharam ao subir a escada para o ringue. Sentir que finalmente estava naquele lugar cheio de tradição, de muito respeito, foi um dos melhores momentos da minha vida”, lembra Carlos, que garante que combater na Tailândia “é o sonho de qualquer atleta”. Carlos teve o mesmo problema de Dimitri: para conseguir ir à Tailândia durante um mês, teve de marcar férias no seu emprego como porteiro e pagar tudo do seu bolso, incluindo viagem e estadia no campo de treino. Mesmo para um atleta profissional como Carlos, é impossível viver apenas do Muay Thai. Não há combates suficientes em Portugal para sustentar um lutador. “Conseguimos um combate a cada cinco meses, às vezes nem tanto”, explica, lamentando que no país ainda não haja competidores profissionais em número suficiente. “Isso que toda a gente diz que faz por aí não é Muay Thai. É inspirado, é uma imitação, mas não é mesmo Muay Thai profissional”, sublinha.

Um dia, o Wilson, o sobrinho do mestre, trouxe-me aqui. E quem é que eu encontrei cá? O Yuri, o meu grande inimigo na escola. Ele roubava-me a bicicleta todos os dias e metíamo-nos à porrada. Hoje somos grandes amigos”

Carlos nem sempre foi lutador de Muay Thai. Começou por ser futebolista, nos juniores do Odivelas FC. “Tinha imensas lesões nos joelhos, andava sempre todo partido dos joelhos”, lembra. Um dia, conheceu Marcelino, hoje responsável pela gestão no dia-a-dia da academia de José Fortes, que o convidou a ir a um treino. “Ele estava sempre a chamar-me mariquinhas e chamou-me para ver o que é que era desporto a sério. Fui experimentar uma aula de Muay Thai, mas ao chegar lá e ver aqueles campeões a treinar, a lutar, deu-me imenso medo”, lembra Carlos. Pensou fugir, mas resistiu. Ficou, lutou, e no primeiro treino perdeu um dente. No dia seguinte, estava lá de novo. “Parecia que me tinham injetado alguma coisa, não sei. Apaixonei-me. E o futebol desapareceu, foi à vida.”

Luís Passos, hoje com 21 anos, chegou ao Muay Thai quando ainda era uma criança problemática de uma escola do Carregado. “Desde pequeno que gostava de lutas e comecei a praticar capoeira em Angola”, recorda o jovem, que com 11 anos se mudou para Portugal. Foi para o Carregado, que “é um sítio um bocado problemático”, e envolveu-se logo em problemas. “Um dia, o Wilson, o sobrinho do mestre, trouxe-me aqui. E quem é que eu encontrei cá? O Yuri, o meu grande inimigo na escola. Ele roubava-me a bicicleta todos os dias e metíamo-nos à porrada. Hoje somos grandes amigos”, diz Luís Passos.

Da primeira vez que foi à Tailândia, Luís tinha ainda 17 anos e ia com o objetivo de ficar lá um mês. Ganhou o primeiro combate por KO e o mesmo aconteceu no segundo. “Tanto que os promotores gostaram das minhas prestações e convidaram-me para ficar lá mais tempo. Conheci a Tailândia de uma ponta à outra”, recorda, não escondendo que, na altura, ficou surpreendido com a reação. “Aquilo era a minha estreia como profissional e já me estavam a considerar uma superstar. Nem sabia como lidar com aquilo”, lembra o atleta. Os promotores que trabalham com o campo de treino do mestre que os recebe chegaram a inscrevê-lo num dos mais importantes torneios realizados na Tailândia naquele ano: um organizado pela Toyota. O vencedor recebia um carro. “Fui eliminado à primeira. Fiz um bom combate, mas perdi logo ao início.”

Dimitri e Luís num combate de Muay Thai profissional. O resto da academia parou para ver os campeões (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Dos atletas de José Fortes, Luís Passos será o que está mais perto de conseguir viver apenas do Muay Thai. Com apenas 21 anos e com o título de campeão europeu e campeão ibérico, Luís já conseguiu o apoio de alguns patrocinadores e consegue ser relativamente bem pago por cada combate em que participa. O problema é que ainda não há combates suficientes para viver. “Se eu fizesse um combate por mês, dava para viver. Mas assim não tenho hipótese”, diz, explicando que não consegue fazer mais do que um combate de cinco em cinco meses. “Quero viver só do Muay Thai, tenho esse sonho e acho que até pode ser possível conseguir. Mas o meu principal objetivo é ajudar a minha mãe, que está em Angola e precisa do meu apoio a partir daqui. Se conseguisse ajudá-la com o Muay Thai, isso seria perfeito”, sublinha.

A vida na Tailândia, o local onde “se respira Muay Thai na rua”

Dimitri é “o mais maluco de todos”, dizem os companheiros. E o mais tímido, também. Sabe poucas palavras em português e prefere ouvir as histórias dos colegas do que contar as suas. Também chegou agora da Tailândia (com uma passagem no Camboja para um combate adicional numa das outras grandes arenas do Muay Thai). “Lá, respira-se Muay Thai na rua.” É assim que Dimitri descreve as suas duas experiências na Tailândia. “O método de treino cá é igual ao de lá. Mas, cá, só vimos treinar à noite, depois de um dia inteiro de trabalho. Lá não há mais nada. Não estamos preocupados com mais nada, é só treinar. Quando fui pela primeira vez, fiquei totalmente apaixonado”, recorda.

Não é fácil ir para lá. Melhor: é fácil ir para a Tailândia (havendo dinheiro para pagar a viagem e a estadia), mas não é fácil entrar nos melhores campos de treino. E, mesmo entrando, não é fácil chegar à oportunidade de combater. É preciso muito talento, mas também ajuda levar as referências certas: neste caso, o nome da academia de José Fortes. “O nosso grande mestre, José Fortes, é muito conhecido e respeitado lá na Tailândia, não só pela comunidade do Muay Thai como na sociedade em geral. Nós vamos para o campo de treino do mestre com quem ele treinou nos anos 80 e somos muito bem recebidos lá por sermos alunos dele”, explica Carlos Moura.

Ir para a Tailândia em busca do sonho de treinar a arte do Muay Thai com os melhores já não é o que era quando José Fortes para lá foi, há mais de 30 anos. “Antigamente, os campos de treino eram mesmo no meio do campo, treinava-se na terra. E depois tinhas umas camaratas com redes para se dormir lá. Tinha um telhado, daquele telhado assim de chapa, que ardia como o caraças, e a malta dormia nas redes, lavava lá a roupa, cozinhava lá e comia. Fazíamos lá tudo e depois tínhamos um ringue para treinar”, recorda José Fortes, que da primeira vez se viu obrigado a ficar na Tailândia durante dois anos: o que recebia com os combates que fazia apenas lhe permitia continuar a viver lá e não regressar a Portugal. Na altura, “era tudo clandestino, ninguém sabia do Muay Thai” nem das tradições tailandesas. “Chamavam-nos malucos.”

Quero ir um ano inteiro para lá, assim que acabar o curso. Faz-me lembrar a minha terra, sinto-me em casa e não apenas pelo Muay Thai. Toda a vivência me lembra de Angola. A terra nas ruas, as pessoas
Luís Passos, atleta

Há trinta anos, quando José Forte fi pela primeira vez à Tailândia, sentiu-se “de cabeça para baixo, noutro mundo”. Na altura, “não havia estrangeiros. Banguecoque tinha 11 milhões de habitantes, chegava lá um estrangeiro, que eles chamam Farang, e toda a gente em Banguecoque sabia que estava lá um Farang a combater”. Quando lá esteve, José apenas viu Banguecoque. “Era o que contava. É como em Portugal, vinha-se a Lisboa, não se ia a mais lado nenhum. Íamos para Banguecoque, treinávamos lá, lutávamos lá, vivíamos lá. Ninguém saía de lá, para já porque não havia estradas; também não era moda; depois era inseguro ir para as províncias.”

Hoje em dia, tudo mudou: o Muay Thai está na moda em todo o mundo e os tailandeses — que “são um povo que gosta de dinheiro”, diz Luís Passos — aproveitaram-no bem. “Já podes ir a um campo de treino qualquer — qualquer não, mas há muitos que se consegue, agora até há uns para turistas, vais para as Phi-Phi, ou para aqueles sítios turísticos, e há lá uns campos de treino em que estás na praia e fazes Muay Thai de lazer. É óbvio que essas pessoas nunca chegarão a profissional, porque não têm inspiração, porque não têm disponibilidade, porque começaram tarde ou porque simplesmente não querem, querem apenas praticar, aprender”, explica José Fortes.

E, mesmo no que diz respeito aos atletas profissionais que sonham em chegar ao circuito tailandês, a própria tradição já se modernizou. “Nós vamos para um campo muito modernizado, que já não tem nada a ver com o que o nosso mestre encontrou. Quando fui a combates em zonas mais rurais ainda fiquei a dormir em campos mais tradicionais e vi alguns mais antigos, mas na generalidade tudo é mais moderno”, explica Luís Passos. Carlos exemplifica: “Agora já não há aquelas redes onde eles dormiam. Temos quartos com ar condicionado, frigorífico, Internet, temos cozinha para fazer a nossa comida à vontade”. O mestre José Fortes não tem dúvidas: “Aquilo tornou-se um g’anda negócio”.

Num ponto, a tradição mantém-se — e é precisamente por esse ponto que os atletas continuam a ir para a Tailândia: estão lá os melhores mestres, os melhores campos de treino, os melhores estádios e os melhores promotores. E, por isso, os melhores combates. Continua a treinar-se ao ar livre — e quem, como estes, consegue entrar nos melhores campos, tem mesmo direito a um instrutor individual e consegue, com mais facilidade, lutar nos grandes estádios de Banguecoque. É por isso que lutadores de todo o mundo continuam a chegar constantemente à Tailândia, abdicando das férias e gastando todas as suas poupanças numa viagem que, muitas vezes, não chega a compensar.

Luís Passos já só pensa em voltar. “Quero ir um ano inteiro para lá, assim que acabar o curso. Faz-me lembrar a minha terra, sinto-me em casa e não apenas pelo Muay Thai. Toda a vivência me lembra de Angola. A terra nas ruas, as pessoas”, diz o atleta, garantindo que “passando lá um ano dá para lutar uma vez por semana”. Carlos Moura tem o mesmo tipo de relação com o país. “Faz-me lembrar a minha infância em Cabo Verde”, explica.

A rotina dos lutadores estrangeiros em Banguecoque está dependente dos promotores que organizam os combates. “Se eles veem que tu és bom, convidam-te para combates. Se treinares nos melhores campos de treino, consegues ser convidado rapidamente para lutar”, explica Luís. Só sendo convidado para lutar é que se pode ganhar algum dinheiro que permita ajudar nas despesas. Mas é aqui que entra o problema da recuperação física. “Já me aconteceu estar um mês a recuperar antes de tornar a treinar”, assegura. Mas, claro, os promotores não estão apenas interessados em organizar bons combates. Na maioria das vezes, querem fazer o campeão local ganhar: por isso, é habitual convidar estrangeiros com menos qualidade para um combate com um campeão, para garantir que o vencedor vai ser o da casa. Este esquema não é necessariamente mau, reconhecem os atletas de José Fortes: é por causa dele que muitos tiveram a oportunidade de participar pela primeira vez num combate importante, onde se puderam evidenciar.

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Muay Thai, “arte de gente livre”

“Há quem diga que o Muay Thai é a arte de luta em pé mais completa e mais perfeita”, garante o mestre José Fortes, que há mais de dez anos deixou o emprego como professor de educação física que lhe complementava os rendimentos e começou a dedicar cada momento da sua vida àquela arte marcial. Mas, afinal, o que tem o Muay Thai que não têm, por exemplo, o karaté, o boxe, o judo e outros desportos de combate, para atrair gente de todo o mundo à Tailândia para treinar e aderir àquela espiritualidade concreta? “Em primeiro lugar, significa arte de gente livre”, explica José Fortes.

“É uma arte que era usada pelos antigos guerreiros da Tailândia para defender o povo tailandês. Como sabe, a Tailândia nunca foi conquistada. Foi invadida, mas foi sempre defendida pelos guerreiros Thai”, continua a explicar José Fortes, destacando que o Muay Thai que hoje se pratica é a evolução natural dessas técnicas de combate, estando “assente na cultura budista da Tailândia”. Ao longo de séculos, a técnica de luta foi ganhando contornos de arte. “Diz-se que é o desporto nacional da Tailândia, mas vamos lá desmistificar as coisas. Na Tailândia, quem faz competição são as pessoas pobres, que vêm do campo, que é o seu ganha-pão e sustento da família”, explica. As classes mais ricas iam ver os combates, patrocinavam cada lutador e organizavam as lutas.

Durante anos, o Muay Thai nunca saiu da Tailândia — apesar de muitos países ocidentais terem tido contacto com aquela arte marcial ao longo da História. Entre eles, encontra-se especialmente Portugal, o primeiro país ocidental a ter relações diplomáticas com a Tailândia. “Só no início dos anos 90 é que se formou uma comissão de amantes de Muay Thay, de pessoas que faziam Muay Thai na Europa, para criar uma primeira federação amadora internacional”, recorda José Fortes, que se lembra bem do primeiro campeonato do mundo, patrocinado pelo governo tailandês. “Acho que fomos 24 países.”

José Fortes elogia cada aspeto deste ringue. “É único em Portugal. Até vêm aqui gravar novelas”, conta (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

O advento do turismo ajudou à divulgação do Muay Thai, já que os milhares de turistas que se deslocam anualmente às praias paradisíacas da Tailândia encontram frequentemente combates de Muay Thai. Aliás, o país soube aproveitar bem o turismo para divulgar a arte marcial: já há campos de treino (semelhantes aos tradicionais) especificamente para turistas, onde os visitantes podem experimentar treinar como manda a tradição. “O Muay Thai é um dos elementos culturais que eles têm mais facilidade em divulgar para fora”, considera José Fortes.

O Muay Thai está também intimamente ligado à dimensão espiritual. Tanto que José Fortes diz mesmo que “é uma verdadeira religião”. No corredor da academia de Castanheira do Ribatejo, imediatamente antes da porta que dá acesso ao ringue, ergue-se um pequeno altar com um Buda. Aos pés da estátua, repousa um melão e um conjunto de pequenos adereços orientais. “O melão é uma oferenda que fazemos. É costume fazermos oferendas de comida a Buda”, explica José Fortes. No entanto, apesar de a dimensão espiritual estar muito presente nesta academia, o mesmo não se pode dizer da dimensão religiosa. “Eu não sou religioso, mas seguimos estas tradições espirituais de forma muito séria, mesmo que os atletas não acreditem na religião”, sublinha o mestre.

Prova disso é a devoção com que Luís e Danut executam o ram muay, uma dança praticada há séculos pelos combatentes, antes de darem início à luta. É um ritual de agradecimento ao mestre e aos deuses, onde, através dos movimentos em cima do ringue, os atletas apresentam os seus objetivos para o combate que se preparam para iniciar. Na dança, o lutador apresenta os movimentos que vai usar para derrubar o adversário e identifica o local da arena em que o vai fazer. A dança é uma questão de prestígio no início do combate de Muay Thai. Quando não realiza uma dança suficientemente longa ou demonstrativa das suas intenções, o lutador é frequentemente olhado de lado ou desprezado pelo adversário, pelos restantes lutadores e pela plateia.

Para o fazer, os lutadores usam o mong kon, um cordão rígido que se coloca na cabeça e que só é obtido depois de o atleta provar ao mestre que tem capacidade para lutar com dignidade. É neste objeto que reside grande parte da dimensão espiritual dos atletas ocidentais de hoje. Luís Passos leva-o para todo o lado — ganhou o campeonato da Europa em Londres, há três anos, com ele. “Não ligo muito à parte religiosa. A minha espiritualidade no Muay Thai é o meu mong kon. Tenho muita fé nele, levo-o sempre para todo o lado e não deixo mais ninguém mexer nele a não ser o mestre”, explica o atleta. Costuma dizer-se até que dá azar se o mong kon for tocado por mais alguém além do mestre — que o coloca na cabeça do lutador — antes do combate. Carlos concorda: “Fazer a dança tradicional é o melhor momento do combate quando temos o privilégio de combater em sítios como Lumpinee”.

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“Se descobrir que aprendes Muay Thai para usar contra as outras pessoas expulso-te”

Luís não tem rodeios: “Basta ter olhos na cara para perceber que o Muay Thai a nível profissional é violento”. Mas não é agressivo, garantem os atletas. “Nunca queremos aleijar o adversário, não queremos magoar os outros atletas. No Muay Thai só lutamos para fazer pontos e é sempre com muito respeito, se alguém se aleijar é um acidente”, esclarece Carlos. Até pela dimensão mística da modalidade, os atletas são frequentemente incentivados a manter uma postura de respeito pelos adversários, “ao contrário do que acontece nas outras modalidades”, afirma Danut.

Não me preocupo com nenhum campeão quando eles se vão embora. Sei que vou fazer outro a seguir”

Mas o mestre rejeita a ideia de que as artes marciais promovam a violência. “Isso é treta. É pura treta. “Estamos a falar de duas coisas distintas. Há pessoas violentas. Há pessoas que andam à pancada sem treinar. Há pessoas que têm um instinto selvagem, de arruaceiros. Há arruaceiros. E também há arruaceiros dentro das artes marciais. O que não quer dizer que quem faz uma arte marcial vire arruaceiro. Antes pelo contrário. Tornam-se pessoas diferentes, há um espírito de camaradagem, de justiça, de verdade. Tornam-se melhores pessoas. E isso acontece com mais de 90% das pessoas”, considera José Fortes.

Grande parte da violência de rua não é cometida por pessoas que treinem especificamente para isso. “É mais fácil dar uma facada ou apanhar-te à traição do que teres que te sujeitar agora a regras. E há quem vem da rua [para o Muay Thai] que se transforma e se torna numa pessoa completamente diferente”, garante. Mas, quando tal acontece, há que ter “mão pesada e castigar este tipo de coisas”. É por isso que na academia de José Fortes, caso alguém seja apanhado a utilizar as técnicas do Muay Thai para praticar a violência, o caminho é a expulsão. “Se eu descobrir que tu andas a aprender Muay Thai para usar contra as outras pessoas, é lógico que eu te vou mandar embora, vou-te expulsar, vou-te pôr na rua. Eu expulso mesmo, por má conduta.”

Luís gosta de exibir os seus troféus na academia e é admirado pelos outros alunos (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Na academia de José Fortes, isso já aconteceu várias vezes. “Campeões e campeões que já saíram por causa disso”, diz o mestre. Mas isso não o preocupa muito. “Não me preocupo com nenhum campeão quando eles se vão embora. Sei que vou fazer outro a seguir.” Enquanto fazemos uma última visita pelo espaço da academia, já depois da conversa com os atletas, o treino já vai adiantado. Crianças pequenas lutam contra atletas experientes ao lado de adultos que estão a experimentar a modalidade. Os olhos de José Fortes brilham e torna a repetir: “É este o segredo. Muay Thai para todos. Eu não quero saber de competições. Quero é formar pessoas nesta arte que é tão bonita e tantas vezes mal interpretada. Se daqui surgirem campeões, melhor ainda”.

Apontando para um conjunto de crianças, assegura: “Entre aqueles, está ali um futuro campeão. Eu sei que está”. Mais de quarenta pessoas treinam livremente pelo espaço, mas há um jovem que se destaca. Ao fundo, sozinho, a lutar contra um saco de boxe, concentrado. “Aquele ali é o próximo a ir à Tailândia. Aquele tenho a certeza que vai ser um campeão.”

Fonte : Observador