Inspeção investiga nos Salesianos de Lisboa fuga no exame de Português


Há suspeitas que a autora da gravação que circulou dias antes da prova é aluna daquele colégio. Inspetores analisaram o ficheiro áudio para perceber em que momento foi feito e por quem e já ouviram o professor que denunciou o caso.

Elementos da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) foram na semana passada ao colégio Salesianos de Lisboa no âmbito das investigações à alegada fuga de informação no exame nacional de Português do 12.º ano. Suspeita-se que a gravação que circulou dias antes da prova com indicações sobre a matéria que ia sair foi feita por uma aluna daquela escola privada, apurou o Expresso.

Identificar a autora da gravação é fundamental para que a IGEC e o Ministério Público, que também está a investigar o caso, consigam verificar se houve realmente uma fuga de informação e de onde partiu. A confirmar-se a fuga, está em causa o crime de violação de segredo por parte do professor ou funcionário que divulgou o conteúdo da prova e que, além da expulsão da administração pública, pode enfrentar uma pena até três anos de prisão.

Todos os envolvidos na elaboração dos exames estão obrigados ao dever de reserva e confidencialidade. O processo está rodeado de enorme secretismo: a guarda, distribuição e recolha dos enunciados constitui, aliás, a maior operação de segurança anualmente realizada em Portugal, mobilizando grande parte do efetivo da PSP e da GNR.

O Expresso falou com vários alunos do colégio Salesianos de Lisboa que confirmam ter recebido a gravação através do WhatsApp pelo menos dois dias antes da prova, realizada há uma semana por cerca de 74 mil estudantes do 12º ano. Alguns alunos identificam uma colega da escola como a autora do ficheiro áudio.

O Expresso tentou várias vezes contactar a direção do colégio, mas ninguém se mostrou disponível para falar.

“Ó malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. E pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória…” É esta a gravação, a que o Expresso teve acesso, que foi partilhada nas redes sociais dias antes do exame por uma estudante que não se identifica.

A informação sobre a matéria que ia sair revelou-se tão certeira que o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), responsável pela elaboração dos exames nacionais, pediu à Inspeção-Geral de Educação e Ciência para investigar e remeteu o caso ao Ministério Público “para efeitos de averiguação disciplinar e criminal”.

Com orientações para concluir com urgência as investigações, os inspetores da IGEC têm multiplicado as diligências. Além da visita aos Salesianos, já falaram com o professor que denunciou o caso e analisaram o ficheiro áudio para perceber com exatidão quando e por quem foi gravado.

O caso foi denunciado por Miguel Bagorro, professor da Escola Secundária Luísa de Gusmão, em Lisboa, que teve conhecimento da gravação no sábado antevéspera do exame, através de um aluno a quem dava explicações de Português e que, por sua vez, recebeu o áudio por WhatsApp de um grupo de estudantes.

“Na altura não liguei, até porque todos os anos há boatos a circular sobre o que vai sair nos exames. Mas na segunda-feira, quando vi o que saiu na prova, fiquei estupefacto. O que foi dito na gravação foi exatamente o que saiu. Logo nesse dia, escrevi uma denúncia ao Ministério da Educação”, conta ao Expresso Miguel Bagorro.

“Não passa pela cabeça de ninguém que seja possível, por coincidência, acertar nas três coisas. É óbvio que houve uma fuga”, diz.

A comprovar-se, será a primeira fuga de informação na história dos exames nacionais, que já se realizam há 21 anos. Caso as suspeitas de fraude sejam confirmadas, a prova de Português do 12.º ano, a que conta com maior número de inscritos e uma das mais importantes para o acesso ao ensino superior, pode mesmo vir a ser anulada, obrigando todos os estudantes a repetir o exame.

É isso que sugere o regulamento dos exames nacionais: “a suspeita de fraude que venha a verificar-se posteriormente à realização de qualquer prova implica a suspensão da eventual eficácia dos documentos entretanto emitidos”, nomeadamente das notas que serão conhecidas a 13 de julho. Segundo o documento, publicado em Diário da República, deve ser elaborado um “relatório fundamentado, na sequência das diligências consideradas necessárias, em ordem à possível anulação da prova”.

O Ministério da Educação terá sempre de ponderar os benefícios e prejuízos que decorreriam de uma decisão como esta, que nunca aconteceu e que, a concretizar-se, obrigaria 74 mil alunos a repetir a prova, mesmo aqueles que não tiveram qualquer contacto com a gravação e a quem o exame correu bem.

Mas se não anular a prova, o Ministério arrisca-se a ter de enfrentar processos em tribunal por parte de estudantes que venham a sentir-se lesados. O problema é que não está apenas em causa a conclusão do ensino secundário, mas sobretudo o acesso ao ensino superior. O exame de Português é um dos mais requeridos pelas universidades como prova de ingresso. E uma décima pode ser o suficiente para se ficar de fora.

Os resultados da 1ª fase dos exames são divulgados a 13 de julho e as candidaturas ao ensino superior arrancam dia 19.

Fonte : Expresso