Notas das provas de aferição substituídas por relatórios

2016071902Ministério garante que apoio a alunos será melhor e que solução baseia-se na necessidade de saber, sem preocupação das notas

As provas de aferição, que já não contavam para a avaliação dos alunos, deixarão também de ter notas. A decisão, já com efeitos nos testes do 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade deste ano, foi anunciada ontem pelo secretário de Estado da Educação, João Costa. O novo modelo substitui as classificações de A a E (sendo o A a nota mais alta) por relatórios onde são dissecadas as prestações dos alunos nos diferentes “domínios de aprendizagem” de cada área disciplinar.

Além de Relatórios Individuais das Provas de Aferição (RIPA), centrados nos alunos, e que serão entregues pelas escolas aos pais, o Ministério da Educação vai também enviar aos estabelecimentos Relatórios de Escola das provas de Aferição, com o desempenho turma a turma e de toda a escola.

“Existem 8000 possibilidades diferentes de relatórios individuais, enquanto as notas eram apenas cinco”, sintetizou o secretário de Estado. O objetivo, defendeu João Costa, é produzir uma análise muito mais fina do desempenho dos estudantes, permitindo às escolas trabalharem de forma a ultrapassarem dificuldades concretas. Nomeadamente no apoio ao estudo e nos apoios individuais: “Por exemplo, em vez de dar uma ficha de matemática, pode dar-se uma de gramática, ou fazer pequenos grupos de alunos em função das dificuldades específicas.” Outro aspeto sublinhado pelo governante foi a preocupação de ter estes relatórios prontos “mais cedo”, de forma a que possam ainda ter influência nas decisões das escolas.

Ministério prevê diagnósticos mais fiáveis mas há quem receie mais confusão

“Esta solução desliga-se da preocupação com uma nota final e centra-se no que precisamos de saber”, reforçou Helder de Sousa, diretor do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), responsável pela elaboração do novo sistema de relatórios – que serão enviados às escolas já na próxima semana. Um sistema que descreveu como “pioneiro”, apenas comparável a soluções existentes “na Austrália, Islândia e Canadá”.

“Ninguém” erra de propósito

Esta semana, em entrevista ao DN, o ex-ministro da Educação Nuno Crato criticou a substituição das provas finais do 4.º e 6.º anos – que valiam 30% das notas finais a Português e a Matemática – por estas aferições, defendendo que os estudantes não levam “a sério” uma prova sem efeitos na sua avaliação.

Questionado pelo DN a este respeito, João Costa defendeu que “não há nenhuma evidência” de que os alunos se empenhem menos nas aferições. E muito menos de que isso se reflita no seu desempenho nas provas: “Não há ninguém que saiba a resposta certa a uma pergunta e vá responder mal por ser uma aferição”, defendeu, considerando que no limite a aferição até é mais rigorosa: “Permite avaliar o que se sabe e não o que se “empinou” na véspera para o exame.”

Quanto às possíveis quebras de continuidade destes relatórios – já que o ministério optou por um modelo em que as provas vão “rodando” as diferentes áreas disciplinares de um ano para o outro -, João Costa assumiu que, com exceção do 2.º ano, o Português e a Matemática deixarão de ser avaliados todos os anos nas aferições, mas defendeu que existe um “historial de informação” nestas disciplinas que permite tomar as decisões e que se sairá a ganhar com as informações “que não existiam” sobre outras áreas disciplinares.

“Confundir cada vez mais”

O certo é que os argumentos do ministério não convencem todos. Para Paulo Guinote, professor do ensino básico e historiador especializado na Educação, a mudança é “uma ideia interessante” mas que só terá o efeito de “confundir cada vez mais as coisas e tornar muito pouco prática uma intervenção eficaz ao nível das turmas”.

Guinote lembrou que “já eram devolvidos às escolas os resultados com classificações quantificadas por competência e domínio” e defendeu que “a subdivisão” agora proposta já é feita “ao longo do ano” pelos professores. “Isso é feito pelo trabalho concreto do dia-a-dia com os alunos. Não é porque uma prova vem do ministério que descobrimos a pólvora”, sustentou.

Fonte : DN