Hospitais do SNS têm três meses para receber pais nas cesarianas

2016042511Presença dos pais não era permitida na maioria dos hospitais públicos. Os mais antigos podem ter dificuldade em adaptar blocos operatórios no prazo de 90 dias como dia lei

A esperança de ter um parto normal acabou sempre por cair por terra. Mónica Barbosa, 37 anos, passou por três cesarianas no Serviço Nacional de Saúde sem o pai dos filhos presente. Durante a segunda gravidez, em 2013, soube que o obstetra que a seguia no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, permitia a presença dos pais numa clínica privada. “As lágrimas vieram-me aos olhos… Era injusto.” Na terceira, Isabel Faia, uma amiga que estava a passar pelo mesmo, desafiou-a a lançar uma petição. Assim foi.

Em pouco tempo, Mónica tinha as assinaturas necessárias para levar a petição à Assembleia da República. Estávamos em maio. Dois meses e meio depois, nasceu o Martim, sem que o pai pudesse estar no bloco. “Ir para uma cesariana já não é fácil e sem o marido presente, pela terceira vez, é duro e injusto. Foi violento não partilhar aquele momento com ele.” Apesar de não ter tido essa alegria, a formadora de desenvolvimento pessoal pode ter mudado a vida de muitos pais.
Um despacho publicado em Diário da República na terça-feira veio estabelecer que os pais – ou outra “pessoa significativa” – vão poder assistir ao nascimento dos bebés por cesariana, desde que não haja uma situação clínica grave. Os hospitais têm agora três meses para adaptar os blocos às novas regras, um período que alguns profissionais reclamam ser demasiado curto. Este despacho veio no seguimento de uma recomendação do Parlamento para a clarificação do direito de as grávidas poderem ser acompanhadas em todas as fases do trabalho de parto. Em causa está um direito fixado em 1985, mas que permitia diferentes interpretações.

Há décadas que o pediatra Mário Cordeiro defende a presença dos pais quando existe cesariana com epidural. “Na Faculdade de Ciências Médicas fizemos estudos e verificámos disparidades sem qualquer razão clínica e apenas conforme a vontade episódica das equipas”, afirma. Esta medida vem “pôr cobro a uma situação errada, abusiva e que fazia muitos homens não poderem estar num momento transcendente da sua vida”.
Segundo o pediatra, “o lado em que o pai está não tem nada que ver com “o outro lado”, ou seja, o dos médicos. Um pano verde os separa. E a mãe, numa cesariana, tendo um papel mais passivo, até precisa mais da presença do pai”.

No Centro Hospitalar de São João, no Porto, há oito anos que os pais já podem assistir às cesarianas. “Foi uma medida vista pelos casais como benéfica porque reduz a ansiedade das grávidas”, conta Diogo Ayres de Campos, responsável pela implementação da norma. Acabado de sair de uma cesariana, o também professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto diz que “estava lá o pai e ajudou bastante. É importante, sobretudo antes, no momento da epidural, porque há alguma ansiedade.”

Desta forma, diz o obstetra do São João, “torna-se o ambiente do bloco operatório menos agreste”. Num hospital onde se realizam cerca de 450 cesarianas por ano, Diogo Ayres de Campos diz que não tem conhecimento de qualquer problema, pelo que não vê desvantagens na medida.

Destacando que a norma já está em vigor na maioria dos países do Norte da Europa, o obstetra considera que “não será difícil de implementar”. Contudo, Maria do Céu Almeida, diretora do serviço de obstetrícia da maternidade Bissaya Barreto (Coimbra), alerta que “as instituições hospitalares mais antigas [como a que dirige] e que nunca tiveram alterações estruturais ao longo dos anos terão dificuldades em conseguir cumprir o despacho em três meses”.

Isto porque implica “a existência de local próprio onde o/a acompanhante possa trocar de roupa e depositar os seus pertences de forma adequada” e “a definição de um circuito em que o/a acompanhante possa movimentar-se, sem colocar em causa a privacidade de outras utentes nem o funcionamento do serviço”.

Além das condicionantes físicas, Maria do Céu Almeida refere, ainda, as humanas. “Com equipas de enfermagem e de médicos sempre abaixo do desejável para uma assistência clínica ótima”, destaca, não estará em causa a segurança clínica, mas “a disponibilidade para o diálogo e o acompanhamento com a parturiente/casal que se pretende ser contínuo, mas muito difícil pelo fluxo enorme de utentes”.

A responsável diz que “há todo um trabalho de ensino que tem de ser desenvolvido, que pode ser feito nas aulas de preparação para o nascimento (mas que apenas uma minoria de pais pode fazer por razões diversas). Não me parece que uns ensinos “apressados” imediatamente antes da intervenção possam tornar apto qualquer pai a entrar e a “estar” num bloco operatório.”

À Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto (APDMGP) chegavam várias queixas de mulheres que só sabiam que os maridos não iam poder assistir à cesariana muito perto do parto, quando iam visitar o hospital. “Era um choque. Agora temos igualdade entre quem opta pelo serviço público e privado. A sociedade acordou”, afirma Sara do Vale, presidente e cofundadora.

Fonte : DN